Olhos abertos
Essa história aconteceu há alguns meses, mas me lembro claramente.
Era um sábado com a manhã de clarão.
Me levantei, olhei pro celular, vi as últimas mensagens, olhei pro lado, vi a minha mulher, e daí me levantei de verdade. Escovei os dentes, vi as últimas mensagens e fui até a cozinha. Bebi um gole de água, pensei em comer uma banana, vi as últimas mensagens e reparei que tinha um envelope pardo, um tanto grande, embaixo da porta.
Peguei o envelope. Dentro, havia um pedaço de papel com a mensagem abaixo (e um outro envelope também, cuidadosamente lacrado):
Você aceita participar de uma experiência compartilhada? Aceita entrar numa poesia escrita pelo território da cidade, com seus pés e seu olhar? Se sim, continue lendo.
- Pegue o primeiro ônibus que passar no ponto da frente da sua casa e desça na terceira parada.
- Siga (de longe) uma das pessoas que descer com você no ponto de ônibus. Faça isso pelos próximos 30 minutos.
- Pergunte-se: Que história ela está percorrendo? Que caminho é esse em que todos estamos?
Abra o próximo envelope após uma hora.
Olhei o verso do pedaço de papel e estava escrito:
Considere a sua entrega nessa experiência como um ato de desobediência a você mesmo.
“Mas que diabos é isso?”, me perguntei. Fui ao quarto, acordei minha mulher e mostrei a ela. Depois de algumas risadas tentando entender de quem era a brincadeira, olhamos um para o outro e acho que pensamos a mesma coisa… “Bom, vamos abrir o próximo?”.
Dentro do segundo envelope, havia um papel que dizia:
A vida de todo ser humano é um caminho em direção a si mesmo, a tentativa de um caminho, o seguir de um simples rastro.
E no verso:
- Por que é tão difícil tentar viver daquilo que brota espontaneamente de mim?
- Aborde 5 pessoas que estão ao seu redor e pergunte: “É difícil tentar viver daquilo que brota espontaneamente de você? Se sim, por quê?”
Abra o próximo envelope em 1 hora.
O outro envelope também tinha um certo peso, mas estava todo colado e o único jeito de abri-lo seria rasgá-lo por inteiro. Estava prestes a rasgar quando o telefone toca.
Olá, por favor, não abra o próximo envelope até que você se sinta disposto a se entregar a uma experiência. Este dia pode ser muito especial pra você. Pode te ajudar a abrir o olhar e os poros para uma outra relação com o ambiente ao seu redor. Pense com carinho. Outras pessoas receberam esta mesma provocação hoje, que tal se pudéssemos conversar pessoalmente daqui a pouco? Desconecte-se da sua rotina por um dia. Encontre outras possibilidades. Você se lembra da coisa que mais gosta de fazer? Você se recorda da última vez que foi ao encontro de um amigo sem avisar?
Eu gostava muito de cuidar de plantas, durante toda minha infância ajudei minha mãe num orquidário, mas isso ficou lá atrás, hoje em dia trabalho em uma construtora. Contei pra minha mulher sobre a ligação, falei que era uma bobagem, alguém me pregou uma peça, mas algo dentro de mim foi deslocado. Guardei os envelopes. Mas aquelas mexeram comigo, não sei bem explicar. Nunca fui muito feliz com meu trabalho, confesso.
Como viver daquilo que brota espontaneamente de mim?
Passaram-se alguns dias desde o episódio do envelope. Algo permanece em mim, passei a carregar aqueles envelopes comigo dentro da minha pasta. Até que um dia eu estava numa reunião de trabalho, um colega pediu a palavra e disse:
largar o cobertor, a cama, o medo,
o terço, o quarto,
largar toda simbologia e religião; largar o espírito, largar a alma,
abrir a porta principal e sair.
esta é a única vida e contém inimaginável beleza e dor.
Todos ficaram impressionados. Alguns riram, outros aplaudiram silenciosamente. A reunião seguiu. No final, fui até ele e perguntei o porquê daquilo. Ele me disse que era uma experiência. Uma tentativa de forjar um símbolo novo na rotina enferrujada. Uma ousadia. Ele estava com um envelope na mão também.
Não tive muita dúvida depois disso. No dia seguinte, fui para a rua logo cedinho, às 9 da manhã. Com os envelopes na mão, segui rumo ao desconhecido.
* Quem quiser encontrar o personagem acima na sua trilha pelas ruas e entender de onde vieram e o que são os envelopes inquietadores, participe da Ação de Presente ao Presente (APP) no dia 4 de outubro (http://www.cinese.me/encontros/app-ensaio-sobre-a-cegueira)